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segunda-feira, 1 de março de 2010

Vai ter que engessar.


“- Vai ter que engessar, a fratura fora meio violenta, mas o que esse menino faz?Já são três fraturas em menos de um ano!
- Não sei doutor, esse menino é meio serelepe. -Riu, e o sorriso da mãe era tão límpido e puro que ele até se esquecera da dor que sentia por alguns instantes, isso mostrara-lhe que toda a raiva que ela sentira, quando ele chegara com o braço pendurado em casa fora apenas motivada pelo susto.
- Ele deve estar fazendo uma coleção de gesso, não é Lucas?- Sorriu-lhe mostrando os dentes brancos na boca meio que encoberta pelos bigodes que davam lhe o aspecto de ter engolido uma andorinha, cujas asas ficaram abertas do lado de fora.
- Acho que ele está é precisando de umas boas palmadas, doutor Fonseca, não sabe o nervoso que eu fico quando apronta as dele!
- Palmadas não, mamãe, é só um braço quebrado, não é pra tanto!
- Ele fala que é só um braço quebrado, como se isso fosse pouco ou se o braço não fizesse parte do corpo. Quando é que esse menino vai tomar juízo, meu Deus?!
- É a idade, Carmem, ele tem apenas dez anos, vai ver, quando ele crescer será um homem responsável. –Riu.
- Ai doutor, ai, ta doendo!
- Não se acostumou com isso?
- Ninguém acustuma com dor não, doutor!
- Esse português dele também me irrita, até parece que não pagamos colégio para ele!
- É só um menino Carmem...- Doutor Fonseca veio em meu socorro novamente.”

Depois de algumas horas estava tudo pronto lá ia eu novamente para casa com meu gesso branquinho, branquinho... E mais uma vez sabia que minha mãe ficaria durante todo o dia me mandando tomar juízo, o legal era ir para a escola no outro dia e deixar a turma escrever besteirinhas no gesso.
Mas de tudo isso me lembro de uma coisa que não me saiu da memória, quando cheguei em casa com o gesso todo desenhado fui ler o que tinha escrito.
O Mateus escreveu :Nada está tão ruim que não possa melhorar.
O Nando:O campeão em troca de gesso é você, devia tentar ir para as olimpíadas e implantar esse novo esporte(risos).
O Vadinho: Você é o cara.
A Camila:Você é um fofo.
A Jéssica: Você é meu herói!
A Carol: Se quebrar o braço mais uma vez vai ficar sem ele.
E tinha um montão, mas fiquei cansado,eu não era muito lá de ler, quando ia desistir em um cantinho escrito de canetinha cor de rosa um modesto escrito me chamou a atenção.
Amanda:Gosto de você.
Senti o rosto corar mesmo estando sozinho.
A Amanda não era lá a menina mais bonita da sala, aliás, nem chegava perto das que o eram, era franzina, tinha os cabelos cor de palha, sempre usava uma trança de cada lado, raramente abria a boca e nunca imaginei que iria escrever aquilo pra mim, aliás, eu nunca a notara. Passei todo o tempo que usei o gesso escondendo dos amigos aquela frase senão ia ser zoação do início ao fim e passei a evitá-la, até mudava de rua quando a via, tudo isso para fugir da mira daqueles olhinhos verdes que me fitavam com ternura.
Lembro-me que a vi pela última vez na oitava série, minha família se mudou para a capital. Nossa! Pareço ver a cena na minha frente, a menina agora maior, as pernas magricelas cobertas por uma saia azul que lhe ia até aos joelhos, os braços igualmente magros com as mãos cruzadas sobre as coxas, naquele dia ela estava de cabelos soltos e as longas madeixas lhe caiam ocultando os seios que começam a apontar, parecia uma pintura, ali parada, não ousava a me olhar, mesmo de cabeça baixa eu notei em seu rosto a expressão triste, e de repente me batera também um tristeza e eu não sabia por que, queria me aproximar dela e abraça-la, mas não tive coragem, me despedi dos colegas e fui embora, do carro ainda pude vê-la correr para a janela e acenar.
_Sua namoradinha filho?
_Não pai é só uma colega de classe. _Segui-a com os olhos até não podê-la mais ver.
Voltei oito anos depois á minha cidade, despistadamente perguntei por aquela garota de cabelos cor de palha, me disseram que se mudara para a capital a fim de fazer faculdade, não sabiam de quê.
Na cidade grande passei a imaginar como ela seria e vez ou outra me deparava com alguma moça magrela de cabelos cor de palha e óculos, ela não os usava naquela época, mas como o tempo passa imaginei que os tivesse usando por causa da cansativa carga de estudo e trabalho.
_Cadê meu filho?!
Pude ouvir minha mãe gritar no corredor do hospital, agora não tinha mais tempo para pensar na minha infância, teria que contar tim-tim por tim-tim porque estava ali, sorri meneando a cabeça afastando aqueles detalhes do meu tempo de ingenuidade, a porta se abriu e enfim minha mãe entrou.
_Menino! Você não toma jeito mesmo!_Me deu um tapinha na cabeça.
_Não se preocupe foi apenas uma queda.
_Apenas uma queda que poderia ter grandes conseqüências.
_Não se preocupe mãe estou inteirinho!
Aquele desespero me dava um conforto...
_Onde dói?
_Aqui no braço.
_Deixa eu ver._Ela se aproximou mexendo no meu braço.
_Ai mãe!
_Quebrado, eu sabia! E o doutor Fonseca me dizia que quando você crescesse iria tomar responsabilidade, até parece!
Já estava chateado com os conselhos que minha mãe começara a dar quando a porta se abriu e uma mulher alta , de olhos verdes, pernas bem torneadas , seios fartos e acreditem, cabelos cor de palha entrara com um lindo sorriso no rosto, parecia a menina feia da minha infância, só que linda.
_Deixe-me ver o seu braço.
Tocou suavemente o local.
_Vai ter que engessar.
_Esse menino tem 25 anos e não muda doutora, nem sei quantas vezes já quebrou esse braço...
Eu já não ouvia mais a minha mãe, absorto com a imagem á minha frente, uma doce mulher, linda e maravilhosa, eu nem sentia dor enquanto ela engessava o braço.
_Prontinho, daqui a pouco eu volto pra ver como você está.
Fiz sinal positivo com a cabeça.
Minha mãe saíra com ela, se despedira dizendo que iria á feira, mas não antes de me ordenar para ir para a casa onde ela e meu pai moravam e que eu não estava em condições de ficar sozinho.
Eu crescera, mas minha mãe não mudara.
Horas depois a doutora voltara, só agora eu me lembrara de olhar o nome no crachá preso á blusa branca, Dra.Cavalcante.
_Como se sente?_Sorriu-me.
_Melhor, já havia me esquecido de sentir essa dor, a última vez que quebrei o braço tinha dez anos. _Ri.
_Eu sei. _Riu também.
Parei olhando-a assustado, o coração batia descompassado.
_Sabe?
_Crianças geralmente quebram o braço nessa idade.
_Ah bom!
Retirou-se, eu confesso que estava desanimado, pois ainda nutria alguma esperança de aquela linda mulher ser a pequena feia da minha infância, acabei adormecendo e quando acordei meu pai já estava do lado da minha cama, fora me buscar enquanto minha mãe ficara em casa preparando guloseimas para me mimar.
_ A doutora já te liberou.
_Ela não vem me ver?
Meu pai riu, julgando que eu estava meio lento por causa do sono.
_Acho que você não é o único paciente desse hospital, então vamos?
Então fomos, minha mãe fizera o meu prato preferido, batata frita, bife acebolado, arroz branquinho e feijão preto, ela sempre me agradava assim quando eu quebrava o braço e não me forçava a comer legumes, de sobremesa fez mouse de chocolate, estava delicioso, mas aquilo me fizera lembrar da menina feia da escola e também da doutora...Fui para o meu quarto, confesso que triste.
_É, acho que terei que fazer a barba, já está bem grande.
Meu braço estava refletido no espelho e para minha surpresa notei uma modesta frase, olhei para meu braço e acreditem! Escrito com canetinha cor de rosa, num cantinho do gesso se lia.
“Gosto de você”.
Ass.Dr.Amanda Cavalcanti.


RAQUEL LUIZA DA SILVA.

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