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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Larápio tempo.

Ah larápio tempo...
Levastes coisas sem meu consenso,
Chegastes e partistes tão depressa,
Que nem notei-te a passar por entre as arestas.
Os anos saudosos...
As pessoas amadas...
Os aromas...
Os sabores...
As cores...
Os amores!
Pouco resta, ou quase nada...
Como sois egoísta terrível larápio!
Tudo escondestes onde não posso tocar.
E o que resta-me?
Oh! Cá está...
Saudade, saudade, saudade...
Foi o que não conseguistes levar.
Onde te escondes?
Apenas sussurras em meu ouvido: Deixai-me passar.
E tão depressa partes deixando essa monotonia covarde que insiste em perturbar-me.
Talvez dessa agonia um dia farte-me e te vá procurar,
Nos escombros de tantas Eras,
Na poeira sobre os móveis,
Na chama apagada da lareira
No balançar de cortinas nas janelas,
Talvez te vou encontrar...
Ah larápio!
Buscar-te-ei antes que roube-me o que vale de fato.
Dar-te-ei de pronto a razão,
Mas não toques com teus pesados dedos enrugados, nas pequeninas coisas que ainda guardo no coração.

Raquel Luiza da Silva.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Monólogo

Vou andando pela casa,
Já não sei onde encontrar meus livros preferidos,nem minha roupa, nem meus óculos...
Por vezes esbarro em alguns móveis, quebro alguns jarros...
Passo horas na banheira tentando lembrar-me das datas, dos aniversariantes que para mim são importantes, ou eram, já não o sei.
Demoro mais tempo a chegar ao telefone quando ele toca, raramente toca.
Fico a espera do carteiro, talvez traga uma carta, um postal... Qualquer coisa que sirva-me de prova que  lembram-se ainda que cá estou.
Sinto os dias mais longos e as noites infindáveis, como se somados fossem a eternidade das horas que não passam, mas que de alguma forma arrastam-me.
Deixei de lado alguns hábitos, os que requerem mais força ou exigem um pouco mais da dedicação por parte de minha inteligência.
Prefiro as horas de calma a observar coisas que outrora me eram banais e passavam tão despercebidamente, como observar de minha janela o sol a pôr-se ou a nascer por trás das montanhas, ou a rolinha que faz seu ninho na laranjeira do quintal, ou as formigas que bem organizadas preparam-se para o inverno, ou ainda, a figura refletida no espelho a enrugar-se...
Passei a ter apreço pelo trivial, esquecendo-me completamente do tudo que esgotava-me as forças, ou das horas jogadas fora nas noites boêmias.
Esse corpo já cansou-se, essa mente já cansou-se, prefiro por vezes a solidão que circunda-me, mas detesto quando esta dura o suficiente para que sinta-me só, no abandono.
E aos poucos o aprendizado de tantos anos vividos são como profecias já cumpridas, e ainda que eu viva mil anos, ainda serei aprendiz, e por isso não tenho pressa.
Ando a visitar com mais frequência grandes amigos, nos álbuns de fotos, já partiram, de muitos não tive tempo de despedir-me, faço-lhes uma oração e fico a tentar imaginar como estão, indago-me sobre a morte, não sei como reagirei quando face a face estiver com ela,por vezes apego-me a idéias tolas, como a que Deus guarda as almas em potes de maionese em estantes numa enorme sala, talvez esteja eu a perder a razão, mas será que algum dia tive-a?
Meus entes familiares aparecem sempre no Natal, trazem-me caixas de doces, mal sabem que minha saúde frágil impossibilita-me de degustá-los, mas finjo alegrar-me com tais presentes,para que sintam-se felizes pela minha felicidade fingida, alguns dizem que já pareço um grande palhaço desajeitado, pois bem, cumpro rigorosamente meu ditoso papel.
Apesar de tudo, essa idade não incomoda-me, não assusta-me, apenas torna-me curioso diante do que desconheço, o dia que virá...
E se estou velho?
Oh não! Estou apenas a perder a juventude que um dia bem vivi, pois sei que tudo que envelhece morre e tudo que morre deixa de existir, eu sou gente e gente vive na memória, ainda que de poucos, ainda que em fotos, ainda que em histórias.
Eu sou gente e gente não morre...
Talvez viva em potes de maionese, sobre estantes, na enorme sala de Deus.

Raquel Luiza da Silva.












quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Luz linda!




Há um brilho de luz na saudade...
De cores furtivas,
Lembranças,
Uma doçura inexplicável...
O sorriso que nunca se apaga aqui na memória.

Há um brilho de luz na saudade...
Tudo guardado,
Os abraços quentes,
Os cabelos grisalhos,
Os passos lentos pela casa,
Até mesmo os olhos tristes a pressentirem a partida.

Há um brilho de luz na saudade...
Nos aromas,
Na simplicidade,
No toque suave,
Nas manias,
Nas cores,
Nas flores que colorem seu jardim...

Há um brilho de luz na saudade...
Na voz macia,
Na timidez,
Nos conselhos,
Na partida...
Aqui no coração.

Sempre haverá um brilho de luz em minha vida,
Que de tanta beleza um dia foi morar no céu,
Estrela,
Presente,
Uma luz de brilho infinito,

Luz,
Luz linda,
Lucinda.


Raquel Luiza da Silva.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Assim morre um poema.

                                                                                                                             



O papel alimenta o fogo da lareira,
Palavras lânguidas  lambidas pelo ardor das chamas,
Não mais ocuparão espaço em minhas gavetas,
Esses amores perdidos,
Essa felicidade tardia,
Esse coração que freme ao invés de bater,
Essa força cobiçada,
Esse abraço apertado... apertado,..
Esse sorriso cativante,
Tudo se rende ao calor que os chama,
Sem reagir,
Sem lágrimas,
Sem dor.
Sem drama.
Meus olhos já cansados apenas observam o sumir das palavras,
Silenciosa morte, tornando-se pó...
Pó de tinta,
De gente sem cor,
Sem rosto,
De alma cinza.
Mas misteriosamente com sentimentos.
E eu cá não sei porque me doe essa partida,
Se fisicamente não os vejo,
Se fisicamente não os sinto.
E meu adeus é igualmente silencioso,
E minha mente é igualmente silenciosa,
Sem lágrimas,
Sem drama.
Despedindo-me de parte de mim,
Desse tempo que vai-se embora,
Tão suave,
Tão calmamente,
Consumida por ardente chama.





Raquel Luiza da Silva.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Distante.

O tempo debruça-se sobre os ponteiros do relógio morosamente...
A monotonia das folhas amareladas a caírem das árvores lá fora, causam-me um certo pavor,
Estou só...
Em relapsos , risca-me a mente as lembranças, inóspitas nesse momento...
E eu cá não sei, se sou ou se serei...
Folha amarelada caída de uma árvore qualquer...
Estou só...
Cobrindo de cinza os quadros,
Lançando fora a beleza das cores primaveris,
Ah... Já não cantam os sabiás...
Os gorjeios ficaram tão silenciosos...
E eu, calado pássaro, observo o tempo que não passa,
Sentindo o frio dessa minha árvore de concreto, circundada por tantas outras...
Esse silêncio que deveria sufocar-me, traz-me um certo alívio,
A mente barulhenta descansa por instantes, em paz
Eu sou pássaro,
Vivendo em árvore de concreto, como tantos outros, como tantos outros...

Raquel Luiz da Silva.

sábado, 30 de maio de 2015

Labirinto.

Aquela dor não era minha, derramada na alva folha pela tinta negra que gritava o sofrer, por entre virgulas e pontos, estrofes e versos...
Aquelas lágrimas não eram minhas, a cortar a face, gélidas doentias.
E cada grito de dor ou prazer, quebrava a vidraça invisível dessa mente cansada...
Palavras, palavras, palavras...
E não sei de onde surgiam tantas vidas, vividas em momentos de lucidez extrema, mistura de sofrimento e euforia, diante de minha alma serena.
E a união que se fazia entre minha realidade e a outra parte extrema, me imortalizava no doce alívio de poucas linhas entrecortadas por estrofes e versos,
Eu o ser pensante,
A outra parte o ser errante...
Tocando o céu do invisível de forma angelical,
Com dedos de poeira de um ser mortal,
E a outra parte o infinito, contido na morta folha, viajando pelo invisível.
Naquela mistura de doces delírios, de vidas traçadas á tinta,
De vidas contadas em sentimentos,
Alegrias e tormentos,
De anjos de papel,
Eu o criador de tão humano céu.
E ao findar de laboriosa campanha,
Sete dias de descanso não sei,
Sou de Deus apenas semelhança, nada mais...
E talvez de um sopro,
Chegarei ao contorno dessas vidas sem corpos, de tinta,
Que de minha mente não saem.


Raquel Luiza da Silva.






domingo, 26 de abril de 2015

O último trem.

Não é a dor que me sufoca,
Nem o vazio das horas mortas.
Nem a visão pertinente do bêbado a  dormir na esquina e tomar a lua por concubina,
Nem mesmo o gargalhar da meretriz, que por dentro chora sem cessar.
Não sei...Talvez sejam os anseios contidos nesse tímido coração...
Sentimentos perdidos, algo sem razão.
A vida a resumir-se em quase nada,
Esse tempo perdido a espera do último trem,
O correr das horas e o vazio nos braços meus...
Nos braços de alguém.
Não é a dor que me incomoda,
Não é o amor que me incomoda!
É algo que não sei,
Perdido onde ainda não encontrei.
Talvez seja...
Talvez seja a falta de saber coisas sobre mim, que com o passar do tempo não me importei...
Esse simplório ser, que pensa ser rei...
Esperando o último trem...
Enquanto a meretriz se cala, o bêbado vai-se...
O vazio persiste em meus braços, nos braços de alguém...
Não é a dor que me incomoda,
Nem o amor...
Nem o vazio das horas mortas...

Raquel Luiza da Silva.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ela.

Ela andava devagar, não que tivesse algum problema de saúde ou idade avançada para tal, mas gostava de olhar as vitrines das lojas, não para ver promoções ou artigos novos, gostava de ver-se refletida nos vidros muitas vezes empoeirados. Aquilo era sua distração habitual, passara a deixar o carro na garagem, usava agora o transporte público, suas colegas de trabalho não entendiam porque alguém gostava tanto de passar horas e horas á espera de um ônibus que viria lotado, mas para ela aquilo parecia ser uma diversão, sempre respondia com um sorriso que dessa maneira estava a fazer sua parte pelo meio ambiente, havia razão ali, mas os motivos eram outros, bem sabia ela.
Na bolsa carregava sua revista de palavras cruzadas, algumas moedas,as chaves de casa,  um chocolate de uma marca qualquer e o celular sempre desligado, ria-se disso, porque alguém sempre carregava na bolsa um celular desligado?
Bom... Era coisa dela.
Gostava também de observar as crianças a saírem da escola perto de seu ponto de ônibus, não poderia ser mãe, bem sabia, um câncer de útero roubara-lhe esse sonho, muitos perguntavam-lhe porque não adotar, ela não sabia, mas aquilo não fazia parte de seus planos. Ficava ali sentada, quando todos partiam apanhava a revista na bolsa e ia quebrar a cabeça com seu passa-tempo, muitas vezes deixava que um, dois, três ônibus passassem até resolver ir para casa.
Ir para casa estava ai a frase que muitas vezes a assustava, sabia que encontraria o marido aborrecido a resmungar, ou era a falta de algo que ela esquecera-se de trazer do mercado, ou um botão por pregar na camisa, ou as contas que não haviam sido pagas... Se ela tivesse um pouco de sorte ele ainda estaria no trabalho, talvez contando com a assistência de alguma secretária... Aquilo não a assustava de forma alguma, no início do casamento sim, mas com o passar do tempo deixara de ser pesadelo.
Todos os dias era a mesma coisa, parecia um ritual, retirar a chave da bolsa abrir a porta e entrar para seus problemas diários, parava relutante, mas sempre entrava, não entendia porque tinha aquela terrível vontade de voltar, de pegar novamente o ônibus, talvez um avião e ir para outro lugar, distante! Respirava fundo, Deixava a bolsa sobre o sofá e ia para o banheiro, tomar um banho relaxante, ora, já não se importava muito, talvez o marido tivesse ido embora, sempre ria-se quando imaginava isso, mas sabia que não, ele gostava de manter as aparências, sempre.
Naquele dia, parou diante do grande quadro pintado por um famoso artista, presente de sua mãe, onde sorridente ela e o marido pareciam tremendamente felizes, no dia do casamento, passou alguns minutos ali a relembrar aquele dia, de fato estava feliz, não imaginava que a vida a dois tivesse tantos revezes como diziam, ela sentia-se preparada para o que desse e viesse, pensava que exageravam nos conselhos, talvez se tivesse dado mais ouvido... Bom... O leite já havia derramado, agora sentia-se só, o marido pouco lhe ouvia, ou quase nada, ou somente o que lhe interessava, já não havia mais cumplicidade, nem harmonia entre eles, eram como dois estranhos dividindo o mesmo espaço,a mesma cama, as mesmas contas, os mesmo problemas, mas continuavam sendo estranhos um para o outro, aquilo já a incomodava há algum tempo, porém, naquele dia parecia perturbá-la de forma incontrolável, mas sentia que nada podia fazer, saiu da frente do quadro, foi para o banheiro para seu banho demorado, de lá pôde ouvir o marido chegar á discutir com alguém ao telefone, afundou-se na banheira para fugir  desse mundo.
_ A comida ainda está fria!
Ela voltara a si emergindo das águas mornas que lhe davam sossego.
_Pois é, a emprega vai embora antes de chegarmos._Passou as mãos pelo cabelo retirando o excesso de água.
_E porque você não preparou a mesa?
_Você também não.
_Mas eu cheguei agora! Estava no trabalho!
_Eu também. Pode me passar a toalha por favor?
Ele o fez com má vontade.
_Ande logo! Estou com fome!
_Então aquece algo para comer, não tenho fome, vou dormir mais cedo, boa noite.
Ele ficou a olha-la surpreso com aquele diálogo, ela nunca agira daquela maneira, sempre fora obediente acatando com precisão suas ordens.
Naquela noite ela decidira ficar no quarto de visitas, estava farta do cheiro do perfume dele e dos roncos, pensamentos assaltaram-lhe a cabeça não dando-lhe oportunidade de dormir, ele não aparecera para se retratar por todos aqueles anos de ausência afetiva, nem mesmo para saber os motivos que a levaram a estar no quarto ao lado. Acabou vendo o dia amanhecer, ele sempre saia primeiro como de costume, talvez deixaria uma bela mesa de café com flores e um bilhete desculpando-se, mas isso não aconteceu, ela respirou fundo, arrumou-se, escreveu algo num papel e saiu, libertou-se.
No final do dia tudo parecia normal, mas ela não fora para o trabalho, não passara pelas vitrines, nem assentara-se no ponto de ônibus, nem abrira a porta de casa, o marido chegara esbravejando por algo que ela esquecera-se de fazer, encontrara um bilhete sobre a mesa, contendo apenas uma palavra. Adeus!
Onde estaria ela? Não sei, semanas antes passara numa agência de viagens comprara um bilhete de avião, nada disse á ninguém, nem mesmo á mãe, mas uma coisa era certa, ela havia se libertado.


R.L.S






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Coração de menino.

Há uma beleza incerta nesses caminhos que piso,
Que baila entre os saberes de Kardec e os sonhos do Príncipe Menino.
Tanta beleza exposta em cada rua, em cada viela...
A história que usurpa as horas como se o tempo fosse dela.
Mas a saudade, com seu sorriso lacônico...
Nunca me deixa esquecer da terna terra de Santo Antônio.
Lisboa?
Ah... menina moça...
De ti o sangue do Santo corre nas veias.
Mas o amor e a fé desse forte povo, tornaram-no Santo Antônio de Gouveia.
E cá nessas terras distantes, onde tudo é diferente, as paisagens, essa gente...
Confesso que agora entendo com perfeição o que sentia Gonçalves Dias na canção do exílio.
Tão distante...
Tão distante...
Que me sinto como caminheiro errante!
Trazendo no peito um coração de menino
Inquieto com seu destino.
E no alforge um punhado de saudade, que a nada se assemelha, que chega a encher-me de lágrimas os olhos,
Ao lembrar-me o quão distante estou, de minha amada Gouveia.
Raquel Luiza da Silva.