Translation language

Total de visualizações de página

Follow by Email

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ela.

Ela andava devagar, não que tivesse algum problema de saúde ou idade avançada para tal, mas gostava de olhar as vitrines das lojas, não para ver promoções ou artigos novos, gostava de ver-se refletida nos vidros muitas vezes empoeirados. Aquilo era sua distração habitual, passara a deixar o carro na garagem, usava agora o transporte público, suas colegas de trabalho não entendiam porque alguém gostava tanto de passar horas e horas á espera de um ônibus que viria lotado, mas para ela aquilo parecia ser uma diversão, sempre respondia com um sorriso que dessa maneira estava a fazer sua parte pelo meio ambiente, havia razão ali, mas os motivos eram outros, bem sabia ela.
Na bolsa carregava sua revista de palavras cruzadas, algumas moedas,as chaves de casa,  um chocolate de uma marca qualquer e o celular sempre desligado, ria-se disso, porque alguém sempre carregava na bolsa um celular desligado?
Bom... Era coisa dela.
Gostava também de observar as crianças a saírem da escola perto de seu ponto de ônibus, não poderia ser mãe, bem sabia, um câncer de útero roubara-lhe esse sonho, muitos perguntavam-lhe porque não adotar, ela não sabia, mas aquilo não fazia parte de seus planos. Ficava ali sentada, quando todos partiam apanhava a revista na bolsa e ia quebrar a cabeça com seu passa-tempo, muitas vezes deixava que um, dois, três ônibus passassem até resolver ir para casa.
Ir para casa estava ai a frase que muitas vezes a assustava, sabia que encontraria o marido aborrecido a resmungar, ou era a falta de algo que ela esquecera-se de trazer do mercado, ou um botão por pregar na camisa, ou as contas que não haviam sido pagas... Se ela tivesse um pouco de sorte ele ainda estaria no trabalho, talvez contando com a assistência de alguma secretária... Aquilo não a assustava de forma alguma, no início do casamento sim, mas com o passar do tempo deixara de ser pesadelo.
Todos os dias era a mesma coisa, parecia um ritual, retirar a chave da bolsa abrir a porta e entrar para seus problemas diários, parava relutante, mas sempre entrava, não entendia porque tinha aquela terrível vontade de voltar, de pegar novamente o ônibus, talvez um avião e ir para outro lugar, distante! Respirava fundo, Deixava a bolsa sobre o sofá e ia para o banheiro, tomar um banho relaxante, ora, já não se importava muito, talvez o marido tivesse ido embora, sempre ria-se quando imaginava isso, mas sabia que não, ele gostava de manter as aparências, sempre.
Naquele dia, parou diante do grande quadro pintado por um famoso artista, presente de sua mãe, onde sorridente ela e o marido pareciam tremendamente felizes, no dia do casamento, passou alguns minutos ali a relembrar aquele dia, de fato estava feliz, não imaginava que a vida a dois tivesse tantos revezes como diziam, ela sentia-se preparada para o que desse e viesse, pensava que exageravam nos conselhos, talvez se tivesse dado mais ouvido... Bom... O leite já havia derramado, agora sentia-se só, o marido pouco lhe ouvia, ou quase nada, ou somente o que lhe interessava, já não havia mais cumplicidade, nem harmonia entre eles, eram como dois estranhos dividindo o mesmo espaço,a mesma cama, as mesmas contas, os mesmo problemas, mas continuavam sendo estranhos um para o outro, aquilo já a incomodava há algum tempo, porém, naquele dia parecia perturbá-la de forma incontrolável, mas sentia que nada podia fazer, saiu da frente do quadro, foi para o banheiro para seu banho demorado, de lá pôde ouvir o marido chegar á discutir com alguém ao telefone, afundou-se na banheira para fugir  desse mundo.
_ A comida ainda está fria!
Ela voltara a si emergindo das águas mornas que lhe davam sossego.
_Pois é, a emprega vai embora antes de chegarmos._Passou as mãos pelo cabelo retirando o excesso de água.
_E porque você não preparou a mesa?
_Você também não.
_Mas eu cheguei agora! Estava no trabalho!
_Eu também. Pode me passar a toalha por favor?
Ele o fez com má vontade.
_Ande logo! Estou com fome!
_Então aquece algo para comer, não tenho fome, vou dormir mais cedo, boa noite.
Ele ficou a olha-la surpreso com aquele diálogo, ela nunca agira daquela maneira, sempre fora obediente acatando com precisão suas ordens.
Naquela noite ela decidira ficar no quarto de visitas, estava farta do cheiro do perfume dele e dos roncos, pensamentos assaltaram-lhe a cabeça não dando-lhe oportunidade de dormir, ele não aparecera para se retratar por todos aqueles anos de ausência afetiva, nem mesmo para saber os motivos que a levaram a estar no quarto ao lado. Acabou vendo o dia amanhecer, ele sempre saia primeiro como de costume, talvez deixaria uma bela mesa de café com flores e um bilhete desculpando-se, mas isso não aconteceu, ela respirou fundo, arrumou-se, escreveu algo num papel e saiu, libertou-se.
No final do dia tudo parecia normal, mas ela não fora para o trabalho, não passara pelas vitrines, nem assentara-se no ponto de ônibus, nem abrira a porta de casa, o marido chegara esbravejando por algo que ela esquecera-se de fazer, encontrara um bilhete sobre a mesa, contendo apenas uma palavra. Adeus!
Onde estaria ela? Não sei, semanas antes passara numa agência de viagens comprara um bilhete de avião, nada disse á ninguém, nem mesmo á mãe, mas uma coisa era certa, ela havia se libertado.


R.L.S






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Coração de menino.

Há uma beleza incerta nesses caminhos que piso,
Que baila entre os saberes de Kardec e os sonhos do Príncipe Menino.
Tanta beleza exposta em cada rua, em cada viela...
A história que usurpa as horas como se o tempo fosse dela.
Mas a saudade, com seu sorriso lacônico...
Nunca me deixa esquecer da terna terra de Santo Antônio.
Lisboa?
Ah... menina moça...
De ti o sangue do Santo corre nas veias.
Mas o amor e a fé desse forte povo, tornaram-no Santo Antônio de Gouveia.
E cá nessas terras distantes, onde tudo é diferente, as paisagens, essa gente...
Confesso que agora entendo com perfeição o que sentia Gonçalves Dias na canção do exílio.
Tão distante...
Tão distante...
Que me sinto como caminheiro errante!
Trazendo no peito um coração de menino
Inquieto com seu destino.
E no alforge um punhado de saudade, que a nada se assemelha, que chega a encher-me de lágrimas os olhos,
Ao lembrar-me o quão distante estou, de minha amada Gouveia.
Raquel Luiza da Silva.