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domingo, 25 de outubro de 2009

O vestido vermelho.




Marco Antônio afrouxou o nó da gravata, já estava alí parado naquela esquina oculto pelas sombras das árvores há mais de três horas, havia deixado o carro na outra rua para não levantar suspeita, teria que ver com seus próprios olhos, que a esposa o enganava, será que não estava sendo um bom marido? Será que na cama havia deixado de ser um bom homem? Várias coisas lhe passavam pela cabeça naquele momento, passou as mãos pelo rosto afastando o suor que o nervossismo lhe causava, pôde ver quando o táxi parou em frente ao hotel, não conhecia ninguém alí, não que se lembrasse, a reconhecera pelo vestido, ela havia pedido dinheiro para comprá-lo, falara tanto dele que consentira entregando á ela o cartão de crédito, agora lá estava ela á traí-lo, de certo outro homem a despiria, fariam amor e ela no dia seguinte voltaria tranquila para casa como se nada tivesse acontecido.


_Isso não pode acontecer._Desviou-se do carro que quase o atropelou, andou rapidamente, por ser um médico famoso passara sem dificuldades pelo porteiro que até diz ter lido alguns artigos seus numa revista, perguntou ao recepcionista pela moça de vestido vermelho que acabara de entrar, ele lhe informou._ Apartamento 89._Aguardou com anciedade o elevador, estava vazio, sentiu-se bem por isso, não queria que alguém visse o que ele estava prestes á fazer.


_Boa noite, senhor.


Ele não respondêra a velha senhora que o cumprimentara, seguiu calado, hesitou em frente a porta, olhou atentamento o número 89, tinha certeza que ele ficaria gravado para sempre em sua vida, queria acabar com aquilo logo, bateu, ninguém veio atender, de certo estão se vestindo, pesou, bateu novamente, agora podia ouvir passos, apalpou algo no bolso interno do paletó.


_Querido?Já?


Ela lhe sorriu.


_Surpresa?


_Sim eu..._Abraçou-o.


Marco Antônio não conseguia controlar seu ciúme, so lhe vinha á mente aquele homem, que ele imaginava estar alí dentro, á tocar aquela pele morena, roubando de si o coração daquela que ele tanto amava.


_Porque fez isso comigo?_Chorava.


_Porque não via outra maneira de contá-lo.


_Deveria ter contato.


_Seria muito simples, queria que fosse nessa data especial, queria que soubesse que nós...


_Nós?_Ele não titubeou, enfiou a mão entre seu corpo e o dela e o estampido foi abafado por tamanha proximidade, sentiu o sangue quente a molhar-lhe o corpo, afastou-a vendo o olhar assustado._Eu não queria fazer isso, mas você me obrigou._Chorava._Não devia ter me traído.


_Nunca o traí...


Aquelas palavras transpassaram sua carne como uma afiada daga.


_Então...?


_Preparei uma festa hoje pelo seu aniversário, queria contar-lhe..._Levou a mão á barriga levemente avolumada, deixando fluir seu ultimo supiro de vida.


O famoso médico jogou-se sobre ela implorando que não morresse, dizendo que a amava mais que tudo, foi assim que os primeiros convidados o encontraram, ele não tinha forças para tirar a própria vida, também não o faria, havia colocado na arma apenas uma bala, queria que o suposto amante sofresse pela falta dela como ele sofreria, porém, não havia amante algum e ele carregou consigo a culpa da morte da esposa inocente e do filho que ela gerava, enlouqueceu por deixar-se levar pelo ciúme possessivo, a cadeia era para ele o maior alívio, quando o perguntavam o que fez, ele apenas mostrava o vestido vermelho que retirava de uma caixa de papelão já envelhecida, dizia que alí estava seu maior erro.


Ninguem soube ao certo tudo o que aconteceu, os outros presos o encontraram abraçado com o vestido, como que dormindo, porém sem sinal algum de vida, ao lado uma carta dizendo que iria se encontrara com a amada por não ter tido tempo de se desculpar com ela, no chão um pequeno frasco contendo restos de um líquido verde que ninguem nunca soube como ele adquirira e assim a cela ficara vazia, apenas contendo uma cama, sobre a qual havia um vestido vermelho e ao lado dele um frasco vazio, decisão dos presos, para que todos que ali passassem se lembrassem que o amor é vivificador, mas seu excesso misturado com o ciúme é tão mortífero quanto qualquer outro veneno de poder letal.




Raquel Luiza da Silva.


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