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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Memórias póstumas de um mancebo.


Meu nome é José dos Anjos Silva, tão simples quanto os desejos pouco vultuosos de minha finada mãe, Francisca dos Anjos, ao se casar com meu igual finado pai Antônio Silva, leiteiro de profissão, ofício que também segui por falta de opção até os doze anos, quando eles se foram e me deixaram aos cuidados de minha madrinha e bem feitora dona Zefa, meus pais foram espertos ao darem para "amadrinhamento" tão abastada fazendeira, viúva desde que eu me entendia por gente, bom...Mas creio que o intuito de meus pais era mesmo que em sua ausência eu tivesse alguém para zelar por mim, sendo um bom investimento, já que não me deixaram nada além de duas vaquinhas magras, um cão doente, a casinha caindo aos pedaços e várias dívidas, já que a magra economia da qual dispunham foi gasta na pneumonia temporona que os acometera, meu pai num ano e minha mãe no outro.

Fui morar com a madrinha, viver em sua bela fazenda, sempre dizendo que eu seria um doutor, para cuidar dela, bem pensado, estava a dar a mão já pensando no retorno do pão, porém eu tinha pavor á sangue, sempre que via aquele líquido vermelho me dava vertigens e não existe doutor médico que tenha tal frescura, pois bem, ela entendeu meu lado e me deixou escolher, estudei bastante até me tornar professor, com uma boa vida, comendo do bom e do melhor e me divertindo com as serviçais á noite...

Esqueci de mencionar que a madrinha nutria por mim um zelo exagerado, só ia para a cama após eu chegar do colégio e quando pasei á trabalhar fez questão de conseguir-me uma vaga no periódo diurno, alegando que seria bom para meu rendimento, acho que ela me tinha como o filho que não teve, já que o marido faleceu jovem de pneumonia temporona antes de deixar prole.

A madrinha em seus cinquenta e nove anos era tão vaidosa quanto qualquer uma mocinha na flor da idade, dizia que uma mulher elegante podia ter o homem que quizesse, nunca entendi porque ainda estava só, não era lá muito bonita, mas, era gente. Adorava ir ás quermeces na cidade, sempre de braço dado comigo, me exibindo como um reluzente trofeu, e eu? Bom...Eu tinha vontade de ir atrás das belas mulatinhas que faceiras me piscavam disfarçadamente e que me chamavm de "fessorzinho", mas sempre que meus olhos pousavam em alguma dessas moças, sentia uma profunda dor, efeito das unhas de minha madrinha me cravando na pele do braço e me deparava com seu doce sorriso como a dizer" se olhar de novo te lasco outro beliscão".

E assim foi até os vinte e cinco, sem namoros sérios, já cansado de ser o queridinho da dona Zefa, então resolvi dar um basta, já havia alcançado minha independência financeira, podia alugar um quarto de pensão e lá me instalar, fiquei no jardim á esperar pela volta da madrinha que sempre ia á passeio pelos campos á ver seu gado, ela não tardou, me veio sorridente segurando uma pequena caixa bem embrulhada em papel morrom, um presente, imaginei logo, mas também tentava descobrir o que seria, já que seus mimos se faziam através de belas camisas e calças de bom corte.

_Abra!

Estava ela ansiosa a olhar-me.

_Lindo._Eu disse.

_Só?

Notei que a havia decepcionado ao não dar muita atenção para o reluzente relógio de ouro, para não piorar mais resolvi que so lhe falaria após o jantar, assim, passei todo o dia ensaiando palavras de agradecimento e um belo discurso já havia programado quando me sentei á mesa, deixei que ela me falasse de seu passeio pelos campos, quando á interrompi com um ar exagerado de doçura, do tipo que criança usa para pedir coisas impossiveis á mãe, ela de imedito notara.

_Madrinha, já estou á envelhecer, preciso pensar em constituir família, ter minha prole...

_Não lhe basta a boa vida que lhe dou?!

Voziferou me fazendo sentir estranhamente como um acompanhante de luxo daquela velha senhora, se bem que nunca á toquei com segundas intenções.

_Fico grato, mas..._Tentei continuar.

_Nada de mas._Passou a engolir vorazmente a comida dando ordens para que a empregada não deixasse faltar vinho em minha taça,o que já ia me deixando sem noção...

Na manhã seguinte acordei nu, sentia a cabeça girar e a doer, o que me fez lembrar do vinho, estava eu á sentir meu primeiro porre, virei-me na tentativa de me livrar dos raios de sol que entravam pelas cortinas entreabertas, e qual não foi meu desespero ao me deparar com a madrinha, meu Deus! Ela também estava completamente nua!

Estava desnorteado, tentei acordá-la para entender o que havia ocorrido, porém ela não se movia, chamei desesperadamente pelos empregados e constataram o pior, a madrinha estava morta, sentei-me desolado na cama, me sentindo o pior dos homens do mundo, será que...? Era melhor não pensar que era tão ruim de cama á ponto de matar uma mulher.

O boato já corria quando o médico enfim saiu do quarto, olhei-o aos prantos e ele me disse que ela estava com pneumonia á alguns dias e não havia tomado cuidado, mas ainda me pesava o fato de ter feito coisas com minha madrinha, porém logo foi esclarecido, sei lá porque raios meus pais me ensinaram a tratá-la assim, já que minha verdadeira madrinha morava numas paragens que eu nunca havia ouvido falar, quem acabara me contando foi o padre, não preciso dizer do alívio que tive, então sai dalí, carregando minha malinha com minhas roupas, únicos pertences que me foram permitidos levar, já que a madrinha havia mudado seu testamento antes de partir, deixara tudo para a caridade, não me importei, ela me alforriara partindo, só tinha eu que curtir a vida e curti, por duas ou três semanas, naquele fim de mundo onde nasci José dos Anjos Silva e onde morri de pneumonia temporona.


Raquel Luiza da Silva.

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