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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Rotina



“As coisas nunca mudam!”
Pensava Miguel girando o dedo dentro do copo de leite aguado, nem nisso via diferença, já que a mulher buscava o líquido branco todas as manhãs na padaria e da mesma maneira abria a caixinha e virava em seu copo, colocando um pouco de açúcar para adoçar seu paladar que há muito tornara-se amargo.
_O que foi homem de Deus?Acordou hoje com uma cara de réu e agora ta aí pensativo._Enxugou as mãos no avental após terminar de lavar a louça.
_Nada não._Apoiou o rosto entre as mãos e os cotovelos na mesa, deixando de lado o copo de leite aguado.
_Que nada é peixe, e outra, nada, não deixa ninguém assim com essa cara de pão dormido.
Ele fechou os olhos á procura de uma resposta plausível para o que sentia.
_O leite está ralo._Foi o melhor que encontrou.
Ela gargalhou mostrando os dentes bem cuidados cujo tratamento lhe custara os olhos da cara.
_Minha Estrela Dalva! Você bebe esse leite há 25 anos e juntando com os nossos dez de casados são 35 e só agora nota que o leite é ralo?
_É...Você tem razão._Respondeu desanimado.
_Se eu fosse você me adiantava viu, porque já ta quase na hora do trabalho e sempre que se atrasa e o chefe te chama atenção, me irrita o resto da tarde.
_Eu nunca te irrito, sempre que chego atrasado no trabalho e o chefe me chama a atenção , vou para meu quarto, passo o resto da tarde lendo e á noite durmo calado._Tom de desanimo persistia.
_Ah, é mesmo!Sempre me esqueço que você nunca muda seus hábitos.
_Por acaso está me confundindo com alguém?Sei lá...Outro homem?
_Vem cá, por acaso está insinuando que estou te traindo só porque comprei novos sapatos e novas roupas, arrumo sempre os cabelos e as unhas, recebo flores sempre e comprei uma cinta-liga vermelha?
_Não, longe de mim!Você é uma santa.
_Ainda bem que você sabe._Ajeitou os cabelos deixando o pescoço a mostra um cordão com um pingente que ha alguns dias não usava.
_Se eu me chamo Miguel, você se chama Vanessa e não temos filhos, porque você está usando um pingente com a letra T?
_Uai...
_Está bem, não precisa explicar, já estou atrasado._Beijou-a, em seguida apanhou a pasta sobre o sofá.
_Morzinhooo..._Tinha a voz manhosa._...Vou precisar do carro.
_Está bem, vou á pé._Fechou a porta atrás de si ganhando a rua, o sol estava forte, mas a medida que andava notava que nuvens pesadas começavam a aparecer, já no segundo quarteirão sentiu algumas gotas a molhar-lhe o cucurútio, olhou para o céu já imaginando o toró que viria, apressou os passos, faltavam algumas ruas para chegar ao trabalho, mas foi surpreendido pela chuva mais ágil, tentou proteger a pasta que continha papéis importantes , olhou desesperado para os lados a procura de um abrigo quando enfim notara a marquise de uma loja de lingerie, já estava todo molhado, sacudiu os poucos cabelos molhados, e de repente se pegou olhando aquelas peças provocantes naqueles manequins sem vida, sem calor, com o corpo semi nu, sem sexo...Estranho, mas lhe batera um prazer....Talvez porque não sabia o que era intimidade com a esposa há quase dois meses quando começaram a surgir nela as dores de cabeça que a faziam virar para o lado e dormir a noite toda, ele ficava olhando para o teto imaginando tanta coisa...Mas agora, ali, todo molhado, vendo aqueles seres de resina a sua frente, sentia-se provocado de tal maneira que tivera que esconder com o paletó o volume que se fizera na calça, meneou a cabeça ao notar o olhar curioso de uma das atendentes em sua direção.
A chuva parara , continuou sua caminhada, olhou no relógio, estava duas horas e meia atrasado, já imaginava o desfecho da história, entrou para sua salinha onde revisava os documentos da empresa, não tardou o chefe entrar, estava sério, olhou-o sem desejar bom dia.
_Está demitido.
Miguel deixou a pasta sobre a mesa, até porque não necessitava daquilo, não iria levar nada, aliás, nada ali era seu, passou os olhos se despedindo do local onde se “refugiara” há dez anos, ajeitou o terno molhado no corpo e saiu sem dizer nada aos colegas que o acompanhavam há anos,o sol brilhava novamente,não havia sinal da forte tempestade,parou em frente a loja de lingerie, só que dessa vez resolvera entrar, a mesma atendente que outrora o olhava curiosa através do vidro viera ao seu encontro, ele fez o pedido.
_Não será possível senhor!_Foi o que ouviu.
_Pago o preço que pedirem.
_Se é assim...Vou falar com a gerente._Voltou minutos depois com um sorriso nos lábios._Tudo resolvido, o senhor quer que embrulhe?
_Não, não, vou levar assim mesmo.
Por onde passava era seguido por olhares curiosos, alguns riam e comentavam algo que ele fingia não ouvir, vez ou outra erguia sua compra que insistia em escorregar por baixo do braço, enfim, com um pouco de dificuldade chegou em casa, como já era de se esperar a mulher não estava, substituiu o terno molhado pelo pijama de girafinhas, após retirar todas as roupas femininas do guarda-roupas, ajeitou o travesseiro e abraçou sua compra que estava no travesseiro ao lado.Horas depois a mulher entrava em casa ajeitando a roupa amarrotada no corpo, estranhou todas aquelas malas na sala, se desesperou ao imaginar que o marido descobrira sua traição, já preparava o discurso para enrola-lo com sempre fazia,entrou no quarto com uma cara triste e qual não foi sua surpresa ao vê-lo dormindo docemente agarrado a um manequim de resina vestida com uma provocante lingerie vermelha.

Raquel Luiza da Silva

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