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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amelha? Nunca mais!


“Ser ou não ser, eis a questão”.


Hoje ao olhar-me no espelho notei uma nova espinha, mais uma para retirar o brilho que teria o meu primeiro encontro após uma separação catastrófica em que eu e meu ex marido quase nos engalfinhamos diante do tal juiz que tentava nos propor uma separação amigável.
Pois bem saindo dessa parte chatíssima entro na nova fase da minha vida, a fase do “liberdade ainda que tardia”, fase em que não terei de retirar cuecas molhadas do banheiro ou toalhas de cima da cama, ou ainda limpar sozinha a casa após uma partida de futebol na TV assistida por vários marmanjos a sofrer por causa de 24 homens correndo atrás de uma bola, meu grito de independência foi dado exatamente quando o meu ex marido chegou em casa de madrugada com um cheiro horrível de perfume barato, olhou para minha cara, sem eu nem perguntar, levantou o sobrolho e disparou:
_Querida eu estava trabalhando em um novo projeto, fiquei até tarde no escritório e meu chefe pediu para redigir alguns documentos, é isso.
Tudo bem, eu poderia ter acreditado se não fosse o simples fato de ele ser bioquímico e pelo simples motivo dessa ser uma explicação que eu dava quando chegava tarde do escritório onde trabalhava como secretária, analisem bem, ele bebe, sai com outra que por sinal usava perfume barato desses comprados em barracas de camelô e ainda tentava se explicar com uma das minhas explicações!Não deu outra já cansada da minha crucial vida de “Amelha”, pedi o divórcio, ele fez ceninha, até chorar chorou, depois olhou pra mim e disse:
_Tá bem, se quer o divórcio, terá aliás você não é mais a Vivi que eu conheci está horrível, gorda e começa a aparecer rugas, tenho outra melhor que você.
Confesso que aquilo me machucou e muito, vai ver ele tinha outra mesmo, ficara estranho comigo depois que engordei, isso eu notara, toda vez que o chamava para sair ele inventava uma desculpa e nunca ia, ou estava cansado ou tinha que rever algum projeto, mas sempre me deixava ir sozinha e eu ia, ficava no restaurante, vendo os casais chegarem, como eu queria ser feliz também!De tanta raiva acabava comendo mais do deveria e isso implicava para aumentar ainda mais a minha obesidade.
Numa noite sai para um desses meus jantares sozinha e quando voltei, pensando em como seria a minha nova vida levei um enorme susto ao chegar no meu apartamento, estava totalmente vazio, sem nada o cafajeste levara até as minhas roupas, não precisa dizer que o ódio sobrepôs o susto em seguida.
Fui dormir na casa de uma amiga do escritório, desolada sem ter noção do que fazer, chorei a noite toda me lembrando dos momentos felizes há oito anos atrás e também da mudança brusca após isso e como ele me evitava de todas as formas como companheira de prazer e de companhia, aquela noite para mim fora extremamente crucial, não dormi, me lembro de ter acordado de madrugada vestida com a única peça de roupa que eu tinha e que por sinal era uma saia longa e uma blusa de mangas compridas com a qual eu havia saído para jantar.Andei sem destino, quando como que por coincidência passei perto de um escritório de advocacia”Dr. Carlos Roberto Álvares Silva”, as palavras eram grandes e chamativas, mas postadas de uma maneira que deixava em evidência o bom gosto do dono, passei os olhos rapidamente no restante do letreiro, a última frase acabara me chamando a tenção “...Causas conjugais”, era disso que eu estava precisando!Coincidência ou não eles resolveriam o meu problema, pois bem, fui para o trabalho e no intervalo do almoço lá estava eu, sentada no escritório relatando os últimos episódios da minha odisséia conjugal para aquele simpático senhor que decidira me atender sem marcar hora.
_Não se preocupe senhora o que é seu por direito será devolvido com juros e correção monetária.
Se levantou apertando a minha mão no final da consulta e eu?Apertei aquela branca mão com um sorriso de confiança.
Bom só restava agora esperar não é?enquanto isso fui resolver algumas coisinhas como comprar roupas e algumas outras coisinhas para continuar morando no apartamento, não queria incomodar a minha amiga de trabalho,ter ficado na casa dela aquela noite já estava de bom tamanho.
A casa ficara praticamente vazia com a nova mobília resumida em apenas uma cama no quarto, uma mesa e quatro cadeiras na sala e um fogão na cozinha, passando longe da classe que ostentava cada cômodo bem organizado por um designer amigo meu.
Agora era a minha vez de dar a volta por cima, ele me chamara de gorda e horrível, eu precisava mudar, eu morava no vigésimo quinto andar, passei a descer e a subir pelas escadas, passei numa nutricionista que me dera uma dieta que me levava a ter vontades loucas de comer chocolate e sorvetes, mas eu a segui e para finalizar, passei a freqüentar uma academia , eu estava mesmo disposta a enterrar todo o meu passado e o estava fazendo.
Um belo dia quando fazia minha caminhada matinal antes do trabalho o Marcio meu colega de escritório por coincidência me acompanhou:
_O que deu em você?
_Comecei a surtar com a minha barriguinha de cerveja.
Ri.
_Mas aqui é bem longe da sua casa!
_É...Mas eu precisava de uma companhia é chato e desanimador ter que caminhar horas e horas sozinho, então pensei, já que a Vivi está caminhando sozinha...
Sei lá, mas minha intuição feminina captara algo a mais que uma simples companhia...Continuamos a caminhar e eu paciente esperava notícias mais animadoras do meu advogado e no final do quarto mês meu celular tocou, era o meu anjo da guarda o Dr.Carlos dizendo que o juiz já havia marcado a audiência para a sexta, estávamos na terça, três dias era o tempo de espera para encerrar dezoito anos de casamento os quais eu vivi unicamente para aquele homem, me esquecendo de cuidar de mim e dos meus sonhos, naquele dia após a notícia eu me lembrara que os tivera, quis ter viajado, ter estudado, ter tido uma segunda lua de mel...AH, resolvi deixar pra lá e me concentrar apenas na audiência da sexta feira, depois eu teria tempo o suficiente para organizar tudo de novo, aliás eu tinha 36 anos de idade e muito o que fazer na vida.
Os dias pareciam voar só para aumentar a minha agonia e na quinta feira eu me lembro de ter recebido a visita do meu amigo Marcio e pedido orações e ele me disse uma coisa que não esperava nunca ouvir:
_Vivian, eu não sei como dizer a você...
Olhei-o a espera do fim da frase.
_...Está bem, eu...
_Eu...?
_Eu gosto de você, pronto, falei.
_Eu também gosto de você._Sorvi um gole do café que eu havia passado para nós.
_Não, não é dessa maneira que você pensa, não é como amigo de trabalho ou de caminhada, eu gosto, gosto do seu sorriso, da sua garra do seu carisma, gosto da mulher maravilhosa que você é.
_Olha, você tem sido um amigo maravilhoso principalmente nestes dias difíceis em que vai sair o divórcio, mas eu não quero me envolver com ninguém, pelo menos não agora, será que você me entende?
_Claro._Sorriu sem graça.
_Mas eu...
_Não precisa se explicar, eu já entendi._Deixou a xícara sobre a mesa e saiu.
É estranho, mas ele acabara despertado em mim o meu lado apaixonado e eu pensei nele aquela noite, mas assim que o dia amanheceu fui obrigada a esquece-lo e me concentrar na audiência a qual eu citara anteriormente e que tive ganho de causa, ficando com o apartamento e o meu ex sendo obrigado a me devolver minhas coisas, o que sobrou para ele fora uma casa velha que tínhamos no subúrbio, por isso o ataque de raiva dele unido ao meu ódio recolhido nos levou a nos engalfinharmos ali mesmo na frente do juiz.Fui embora toda despenteada, mas muito feliz, afinal, eu não iria sair do meu apartamento e poderia reconstruir minha vida.
O Marcio passou a me ignorar no trabalho por um tempo e sua resposta para aquela reação fora simples.
_Será melhor assim.
Mas como o tempo é senhor das coisas, após um mês eu não mais me lembrava daquelas coisas horríveis que me aconteceram, numa noite eu estava sozinha em casa, me sentindo só, olhei para uma foto na minha estante, nela estava a turma do trabalho numa festa, o Marcio sorria, mas eu sentia que ele estava triste, não pensei duas vezes, peguei o telefone...
Fui para o trabalho normalmente no outro dia, havia um bilhete sobre minha mesa:
“Podemos jantar no final de semana? Iremos a um restaurante vegetariano se preferir.”
Te amo.
Ass:Marcio.

Senti-me feito uma adolescente boba.

Pois bem, o dia do almoço chegou, é hoje, tive que ir ao shopping não haviam roupas em meu guarda roupas que me servissem todas de numeração maior acima do meu manequim, hoje 35, tirando a espinha na ponta do nariz eu estava ótima, vestido colado ao corpo, salto alto...”Vestida para matar”, aliás, aquela era a minha noite.
A campainha tocando?
Fui atender, era da floricultura, rosas vermelhas, simbolizando paixão, as minhas preferidas, como o Marcio sabia?Eu não contara.
Peraê, tem cartãozinho!
“Com muito amor, a única pessoa que amei de verdade, minha querida esposa Vivian”
Ass: Valter.

Ps: Incluindo convite para um jantar romântico hoje ás 8 da noite, no nosso restaurante.

Olhei o relógio, eram 19:30, dei uma última olhada no espelho, peguei minha bolsa e...Poucos minutos depois o táxi estacionava na porta do restaurante italiano, desci, ajeitei o vestido no corpo, passei o olho ligeiramente pelo ambiente requintado, lá estava ele, elegante como sempre o fora, se levantou puxando a cadeira para que eu me sentasse á sua frente, um perfeito cavalheiro.
_Como você está ótima querida!
_Obrigada, dei um duro danado nesses últimos meses para voltar a minha forma.
_E conseguiu, deixa eu adivinhar...manequim 35, acertei?
_É, acertou._Sorri.
_O que vamos jantar?
_Você eu não sei, Valter, mas eu tenho um encontro e estou meio atrasada.
_?
_Está bem, você está querendo saber porque eu vim, vou te dizer então, só para te agradecer.
_?
_È, agradecer por ter me feito ver que a minha vida de trabalho excessivo e dona de casa estavam me transformando em uma orca sem sentimentos, agora se me de licença, tenho um jantar.
_Com quem?
_Um namorado, de lembranças á sua namoradinha por mim.
Ajeitei novamente o vestido e sai.De dentro to táxi ainda pude vê-lo boquiaberto e em estado de choque.
_Por favor, o senhor poderia ir um pouquinho mais rápido?
Se dizer nada o motorista acelerou, desci na porta do restaurante que não era vegetariano, mas eu sabia que tinha um cardápio variado, para minha surpresa o Marcio estava saindo.
_Marcio._Gritei indo em sua direção.
_Não precisa se explicar.
_Eu tive que resolver uma coisinha antes de vir.
_Podia ao menos ter me ligado, né?
_Pois é, eu errei, mas podemos voltar para o restaurante e jantarmos.
_Não, perdi a fome, vou para casa.
_Está bem, vou com você.
Ele se assustou com a minha determinação, eu não iria perder a minha chance de ser feliz, nunca mesmo.
Imagina, ainda não acredito que ele não reparara a enorme espinha no meu nariz e ainda disse que eu estava linda, dizem que o amor é cego e é mesmo.
Acho que voltei a ser adolescente, me sinto como boba deitada naquele peito forte e peludo após horas maravilhosas de amor, coisa que eu havia me esquecido há tempos que era bom...Agora... Se me dão licença vou aproveitar minha noite aliás é minha noite não é? Meu primeiro encontro, meu primeiro namorado, decidi que começaria tudo de novo até porque a vida é muito curta e deve ter um início sempre a cada dia...
“Amelha? Nunca mais!


RAQUEL LUIZA DA SILVA.

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