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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os anjos possuem covinhas.


Ele chegou meio sem jeito, pediu licença e se sentou no assento livre ao meu lado, o ônibus não estava muito cheio, eu lia meu jornal e assim continuei.
_Que distração minha, moça! Nem perguntei se tinha alguém aqui...
_Não. _Continuei a ler meu jornal.
_Parece que vai chover.
_Não vai.
_Como sabe?
_Estou lendo a previsão do tempo e diz que teremos sol a tarde toda.
_Ah sim...
Aos poucos o ônibus ia ficando apertado, mãos presas nas barras de segurança, um esbarra, esbarra a cada freada e eu continuava a ler meu jornal.
_O dia ta bonito, né?
_É. _Eu não tirava os olhos do jornal.
_Você mora longe moça?
_Sim. _ Será que aquele cara não se tocava que eu queria apenas ler meu jornal?
_Gosta de desenho?
_Depende.
_Como depende?
_Depende, já disse. _Estava meio irritada.
_Está bem, desculpa.
Ele retirara um lápis do bolso do jeans surrado e começara a rabiscar algo numa das enormes folhas de papel que trazia, aquele barulho do grafite passando na folha me irritava e ele ainda pra piorar começara a cantar baixinho, a voz era bonita, mas pelo amor de Deus, eu queria ler o meu jornal!
_Você é bonita moça.
_Obrigada. _Dei um meio sorriso para parecer um pouco gentil, aliás, não era todo dia que alguém dizia isso para uma pessoa que não ligava muito para a aparência, no caso eu.
_Não precisa agradecer.
Continuou a cantar sua canção e a rabiscar na sua folha de papel e eu a ler meu jornal, enquanto pessoas desciam em seus pontos e outras subiam, eu já estava doida para chegar em casa.
_Você tem namorado moça?
O que aquele cara estava querendo?Não me deixava ler meu jornal e ainda queria saber da minha vida?
_Não tenho.
_Que pena!És tão bonita, mas tudo é no tempo de Deus, no tempo do Pai.
_É.
Papinho chato aquele, cara chato! E ele continuava a rabiscar sua folha, eu não tinha curiosidade para ver o que era e nem para olhar em seu rosto e ver quem ele era, assim o tempo passava e eu tentava ler meu jornal com aquele barulhinho irritante.
_Bom...Acho que cheguei no meu ponto.
_Que ótimo..._Resmunguei tentando controlar meus nervos.
_Moça, obrigado pela companhia.
Aquele cara era mesmo um louco!
_De nada._ Não tirava os olhos do jornal.
_Fique com Deus.
_Tá bem.
Ele se afastou e desceu junto com outros passageiros, meneei a cabeça e sorri ao me lembrar de toda aquela chateação, olhei pela janela a tempo de ver parado no ponto a me acenar um rapaz em seus vinte e poucos anos que ao sorrir exibia lindas covinhas.
_Tem alguém aqui?
Uma senhora se aproximou.
_Não senhora.
_Então onde eu coloco seu desenho?
Meu desenho?Olhei para a folha de papel nas mãos da senhora e me emocionei, ali eu estava á lápis e num sorriso espelhava de uma certa maneira toda a minha alma, coisa que ninguém soubera ver, já que eu me fechara para mim e para o mundo, aquele rapaz expressara num desenho o que eu relutava em mostrar, talvez pela correria do dia a dia ou pela falta de fé nas pessoas, no mundo e novamente em mim mesma, deixei o jornal e peguei o papel.
_Obrigada._Sorri.
_De nada._Ela se sentara ao meu lado e no decorrer da viagem foi me contando de sua vida e no final me dissera que o meu sorriso fora tão sincero que ela se sentira impulsionada em não desistir de sua própria vida a qual ela julgara amarga e triste e eu nunca havia me sentido tão bem em toda a minha vida porque havia feito a diferença na vida de alguém.
Cheguei em casa e logo providenciei uma moldura para aquele desenho e quando enfim ele já estava preso á parede da minha sala foi que notei uma coisa, eu não tinha covinhas, aquelas as quais o desenho esboçava lindamente.
Assim eu descobri que sempre deixamos nas pessoas que ajudamos um pouco de nós, não visível aos nossos olhos, mas aos olhos do coração e aquele doce rapaz havia marcado profundamente o meu destino a ponto de eu julgar que todos os anjos do céu possuem lindas covinhas.

RAQUEL LUIZA DA SILVA.

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