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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Da lembrança.




Uma das várias imagens que povoam minha mente e talvez seja a mais marcante é a do meu avô Geraldo Biana, junto ao portão com seu olhar triste á observar o movimento da rua por entre as grades de metal, seu corpo franzino a deixar sombra sobre o passeio de concreto, seus olhos cor de mel pareciam mergulhar num infinito que só nos era permitido ver até se encontrar com o escuro asfalto a arder sob o quente sol e era capaz de assim ficar por várias horas, e tal ato só era interrompido quando passávamos e lhe tomávamos a benção, coisa que eu fazia sempre que passava por lá, duas, três, quatro...várias vezes por dia, não por mania, mas por achar tão belo o soar daquela voz rouca e doce á dizer : “Deus te abençoe.”
Interessante como só fazemos jus da beleza dos momentos quando eles se vão, hoje percebo como eram preciosas àquelas horas em que meu avô se sentava no sofá da sala, de um lado deixava o velho violão, enquanto em sua pequena sanfona tirava melodia “Asa branca” e baixinho com voz sumida cantava a tristeza daquele nordestino á observar a terra torrar sob o quente sol obrigando-o a procurar outras terras p/ ser feliz, mas ao mesmo tempo embalado pela sua paixão que o esperaria voltar um dia.
Quando tive uma paixão repentina pela música que pouco durou, não lhe saia do pé, aprendendo algumas notas que sofregamente tirava das cordas de aço do meu violão, que hoje se encontra pendurado na parede sobre a cabeceira de minha cama e o qual não me encanta mais como outrora.
Outra coisa que me povoa a mente, era a disponibilidade e a tranqüilidade com que ele se nutria ao atender pessoas conhecidas e desconhecidas até mesmo fora de hora que lhe procuravam para que lhes benzesse de alguma enfermidade, e lá ia ele, com sua calma de sempre fazendo suas orações, apenas no movimento dos lábios em silêncio, era interessante como de fato em poucos dias o enfermo já se encontrava são, posso dizer isso com certeza, pois era eu uma de suas freqüentes “pacientes”.
Hoje, são apenas lembranças, sempre consciente que não mais verei a imagem franzina do querido velhinho á refletir sua sombra sobre o passeio de concreto e nem seu olhar triste indo de encontro ao negro asfalto, porque meu “vô” hoje está em um lugar que ele piamente acreditava e fazia questão de nos falar sobre ele, para onde vão as almas boas, um lugar que não existe dor e onde ele durante toda sua agonia deve ter almejado estar, e creio eu que ainda nos olha e abençoa de lá, com a mesma doçura que nem mesmo a dor do câncer lhe roubara ao dizer “Deus te abençoe”.
Para mim meu “vô” Geraldo sempre será eterno, porque a profundidade da presença dele em minha vida é algo que vai bem além do que se possa imaginar e só quem o conheceu poderá entender que conviveu com um anjo, cujas asas voltara um dia para buscar no céu e de lá não mais regressou, porém além de saudade deixou seus conselhos, suas historias, seu olhar triste...Suas lembranças.
E lembranças são assim, sempre terão um sabor de saudade e de vontade de voltar no tempo e pedir para que ele não passe nunca, a fim de conservar momentos e pessoas que nos são preciosos e que ao longo de nossa vida sempre deixarão suas marcas.


Raquel Luiza da Silva.

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