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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Nona Sinfonia de Bethoven.


O sangue escorria pelo chão, o corpo lívido da jovem mulher jazia imóvel sobre a cama , ao seu lado uma estatueta, cópia perfeita de uma das obras do escultor medieval francês Bernini,objeto que lhe abrira o crânio levando-a ao óbito, do outro lado do quarto defronte ao enorme espelho da penteadeira um jovem aparentando trinta e poucos anos dava os últimos retoques na gravata, após deixar sobre o móvel antigo o frasco do perfume Imperial Majest de Clive Christian que lhe custara mais ou menos US$215.000 ou R$465.000.000, coisa que julgava supérflua mas fazia questão de usar naquela noite, se levantou, ajeitou o fraque no corpo, passou uma das mãos no cabelo colocando no lugar um único fio que se soltara dos demais fixos com gel, num corte extremamente clássico.
Respirou profunda e calmamente se dirigiu até a cama onde estava o corpo sem vida da jovem mulher.
_Está pronta Sofy?Ôh, vai amarrotar o vestido se não se levantar!Detesto sangue!_Apanhou uma toalha branca e jogou sobre a poça que se formara._Vamos Sofy, eu te ajudo._Ergueu o magro corpo da mulher, fazendo com que o vestido preto de seda se arrastasse pelo chão._Como estás pesada!
Arrastou o corpo até o salão de festas da mansão onde uma platéia de sete pessoas os aguardava em silêncio, colocou a mulher na cadeira vazia destinada a ela, olhou para os presentes, todos em seus trajes de gala, foi até ao pequeno palco onde estava o piano de calda, olhou novamente para a platéia que em silêncio o observava com seus olhares frios, sorriu para a moça que a pouco colocara na cadeira, fitou calmamente as teclas brancas e negras, passou os dedos sobre elas suavemente como se tocasse o corpo da mulher amada, sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, olhou novamente para a platéia imóvel, estava nervoso com todos aquele olhares vidrados em sua direção, não suspiravam, não respiravam.
Retirou do bolso do fraque um lenço branco, passou-o pela fronte enxugando o suor que lhe brotava insistentemente, voltou o lenço ao seu devido lugar, respirou fundo, aprumou o corpo no banquinho, a mulher novata na platéia ainda o fitava, aquele olhar o incomodava, se levantou, atravessou o salão até ela, virou-lhe o rosto para a direita num suave movimento fugindo assim da mira daqueles olhos, voltou para o palco, para seu piano, agora sim podia tocar. O quanto esperara por aquele momento! Ensaiara até uma expressão facial para quando ali estivesse, a expressava agora e o fazia com tal perfeição que até lágrimas lhe brotaram dos olhos, as quais deteve com um leve toque do dedo indicador, com toda classe possível.
_Obrigado._Sussurrou erguendo os longos e finos dedos e os baixando sobre as teclas do piano, era a “Nona Sinfonia de Bethoven”.
O suor agora como um rio lhe percorria toda a face, molhando-lhe o colarinho da camisa branca enquanto os dedos freneticamente passavam de uma tecla a outra, num ato que durou dois minutos inacabados. Se ergueu enquanto apertava o botão do controle que ligava o aparelho de som, enchendo o ambiente com o barulho agudo de palmas.
Emocionado parou de frente para a platéia curvando-se em agradecimento pelo reconhecimento e pela “calorosa salva de palmas”, se ergueu lentamente puxando a corda que fechava as cortinas encerrando assim o espetáculo. Desceu e apertou a mão fria de cada uma das pessoas presentes, parou defronte a moça, última nos acentos, inclinou-se beijando os lábios sem cor.
_Que bom que você me ouviu até o fim, querida Sofy.
Retirou do bolso um moderno aparelho celular, os números discados foram poucos.
_Por favor policial, queria fazer uma denúncia..._Após terminar desligou o aparelho, voltou novamente ao palco abrindo as cortinas, apanhou sobre a mesinha perto do aparelho de som um cálice de cristal, encheu-o com o legítimo e caríssimo vinho alemão.“Qualitãtswein mit Prãdikat”da safrade 50, ergueu o cálice e gritou:
_Em honra ao talentoso Bethoven!_Sorveu todo o líquido.
Ligou novamente o aparelho de som, agora o ambiente era preenchido pelo som repetitivo da musica clássica, sentou-se no banquinho em frente ao piano...
_Aqui...aqui...Encontrei delegado.
Vários policiais invadiram o casarão.
_Meu Deus, estão todos mortos!_O delegado constatava lendo os nomes nas etiquetas presas nas roupas de gala.
_Sr.Teodoro( professor de música aposentado), Dna.Zilda( professora de canto), Marcio(amigo), Dna.Noêmia(vizinha), Tatiana(Ex-namorada), Dna Loreta(tia) e por fim Sofya(atual namorada).
_Aqui tem uma carta, doutor!_Um dos policiais se aproximou levando o achado.
_Deixa eu ver.

Lia-se:

“Não se assustem, por favor, esses corpos que ai estão presenciaram um ato maravilhoso, para qual eu havia me preparado há anos, até me igualar ao gênio Behtoven”,
Deixa eu me apresentar, sou Vladimir Delbert, descendente de nobres alemães, pelo menos era isso que meu pai dizia, pois bem, me fizeram freqüentar incessantes aulas de piano aos cinco anos de idade, com professores carrascos, assim como o Sr.Teodoro que ai está e quase me arrancava as orelhas a cada erro meu, eu era só uma criança, mas ele não entendia isso... Ao seu lado está a Sr.Zilda velha insuportável, minha ex professora de canto, vivia dizendo que eu não tinha talento nenhum para a música e me castigava com safanões a cada deslize bobo, pobrezinha...; o Márcio esse rapaz elegante, era meu amigo, mas vivia reclamando da minha falta de talento, a Sr.Noêmia era minha vizinha e me enchia com suas reclamações, batendo á minha porta reclamando, dizendo que eu fazia barulho e não música, a Tatiane era minha namorada, fui presenteá-la com um concerto, sonata que eu mesmo compus, ela olhou para mim e disse:
_O que é isso?
_Fiz para você.
Sabe o que a ingrata fez? Terminou o namoro, mas esqueçamos isso e voltemos a minha platéia, falta apresentar a titia Loretta, disse que iria me deserdar se eu continuasse tocando, só a Sofy, só ela ame entendia , mas a coitadinha se assustou ao ver a minha platéia, ameaçou chamar a polícia(vocês), mas isso iria estragar o meu show, pedi que ela ficasse .
Podem imaginar qual foi o ato da noite?
Nona Sinfonia de Bethoven, eu detesto essa música, aliás, eu detesto piano, porque nunca consegui tocar um com perfeição eram os meus pais que sonhavam em me ver num teatro municipal, viajando...Mas mudando de assunto,passei dias e noites ensaiando esse ato, sem comer, sem dormir..., para provar a eles que eu conseguiria tocar e como não viriam por bem... Dispensei todos os meus empregados e os empalhei ao longo de sete dias, exceto a Sofy que não estava em meus planos, e a mim, porque não tinha jeito, mas agora já finalizamos a apresentação e essa história, agora podemos ser velados como seres dignos de um túmulo para repousar, apenas peço uma coisa...
_Está bem, pessoal, vamos acabar com esse espetáculo monstruoso!_Saiu levando consigo a carta que esclarecia o crime.
Muitos naquela pacata cidade não acreditavam nos relatos que vazaram, talvez contados por algum policial sem ética profissional e lotaram o cemitério para verem o sepultamento do “Pianista Louco” e de suas vítimas.
_Sr. delegado, tenho uma curiosidade...!_O policial que o entregara a carta ás vésperas do ocorrido se aproximou.
_Pergunte!
_Qual era o último desejo desse louco?
_Ele queria que...

_Corta...Corta...Assim não da gente! Isso aqui é um velório!Cadê as caras tristes? Não estão indo a um desfile de escola de samba!
_Também não precisa ficar nervoso, né, diretor?!_O ator que fazia o papel de delegado se aproximou.
_Ah, não?!Olha só, eu tenho um nome a zelar e se meus atores não colaborarem, esse filme não irá ser lançado nunca!
_Estamos todos exaustos, diretor, acho que deveríamos continuar amanhã.
_Está bem...Está bem...Continuamos amanhã, pessoal.

_Peraí, você não vai me dizer que não descobriu o último desejo do louco, ou vai?
_Vou sim, não descobri mesmo, eles não deixaram a gente ver o final das gravações, disseram que estávamos tirando a concentração dos atores e eu como simples faxineiro que sou não ia discutir com o diretor e correr o risco de ser mandado embora.
_Renatinho, eu não sei porque veio me contar isso!_Estava brava.
_Sabe o que é, Vanda? Eu tava aperreado por ficar sozinho com essa curiosidade, porque acompanhei esse filme desde o início...
_Chega...!Ai que ódio!
_Não fique brava, minha deusa. _Levou um tapa na mão ao tentar toca-la. _Eu tenho um presentinho pra você...
Ela arregalou os olhos ao vê-lo retirar algo do bolso.
_Não...Não acredito!
_Pois é... Comprei as entradas, vamos ver juntos no cinema o final da “Nona Sinfonia de Bethoven”.
FIM.

RAQUEL LUIZA DA SILVA.

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