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sexta-feira, 25 de maio de 2012

A louca.





Por favor, faça silêncio, não deixe que seus passos ligeiros possam ranger as tábuas frouxas do assoalho,a morte nos espreita de algum canto, sei que ela dorme nesse momento, mas durante a noite ouço-a perambular pelos vãos das portas semi abertas, por vezes dançante derruba talheres e taças de cristal, sua gargalhada perturba-me, é tal qual canto de ninfas mitológicas a rondar-me a cabeça que penso que irá explodir-me os miolos a qualquer momento.
Ouça, são sussurros, almas presas em suas vestes negras a gritarem enquanto ela dorme, clamam por socorro, desejam a liberdade de um céu de primícias, elas choram enquanto o sol está no céu, mas quando a lua aparece e a morte acorda calam-se e fazem um silêncio que gela-me os ossos, temem-na, apenas ouço o farfalhar de seus pés acorrentados naquelas vestes negras.
Durante o dia fico em silêncio para não perturbar-lhe o sono, sei que ele é leve tal qual as plumas de cisnes, desta casa já levou todos, quase todos, apenas eu fiquei, porque faço silêncio, os outros acordaram-na em pleno repouso diurno e sentiram o peso de sua ira, eu não, aprendi a conviver com ela, somos apenas nós duas nessa velha casa, e eu respeito-a, sei que ela se zanga facilmente, por isso calo-me quando ela dorme e pratico o silêncio dos mortos quando ela está acordada.
Não! Por favor... Não faça barulho! Ela pode nos ver, descobrir que falei dela, que contei de suas vestes negras de almas...
Ela dorme... Ela dorme...
Não faça barulho, não incomode a morte que descansa em algum canto.
Ela dorme...
Ela dorme...

Raquel Luiza da Silva.

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